Mip Day destaca papel dos biológicos e sustentabilidade no futuro da agricultura
Evento em Holambra reuniu produtores, especialistas e representantes da indústria e do varejo para debater inovação, boas práticas agrícolas e o manejo integrado de pragas
O auditório do Instituto Brasileiro de Horticultura (Ibrahort), em Holambra, recebeu nesta quinta-feira (30) a primeira edição do Mip Day, evento idealizado pela Promip com o objetivo de aproximar os diferentes elos da cadeia produtiva — do campo ao varejo — e discutir os avanços do Manejo Integrado de Pragas (MIP) e o uso de biológicos em larga escala na agricultura.
A programação reuniu produtores de flores, frutas, legumes e verduras, representantes da indústria e do varejo, técnicos e especialistas em sustentabilidade, com foco em práticas agrícolas mais seguras, eficientes e alinhadas à pauta climática que será debatida na COP 30. A 30ª Conferência das Partes da ONU sobre Mudanças Climáticas ocorre em Belém (PA), de 10 a 21 de novembro de 2025.
“Um espaço para o diálogo entre todos os elos da cadeia”
Para Marcelo Poletti, CEO da Promip, o Mip Day surge como uma evolução natural do programa MipExperience, criado em 2019 e reconhecido pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) como referência em boas práticas agrícolas. Segundo ele, o evento foi concebido para criar um espaço de interação direta entre produtores, indústria, governo e varejo, algo ainda raro nas discussões técnicas do setor.
“O Mip Day vem para ser uma forma de comunicação e interação direta com o produtor e com os elos do agronegócio. O programa é feito para o produtor, mas reúne pesquisadores, extensionistas, a indústria e o governo. E o grande diferencial é trazer o varejo para dentro dessa conversa”, afirmou Poletti.

Marcelo Poletti, CEO da ProMip
O executivo destacou ainda os resultados práticos do MipExperience, que já soma 50 mil hectares cadastrados em hortaliças e frutas. Segundo ele, o uso de biológicos tem garantido maior eficiência no controle de pragas, redução do uso de defensivos químicos e melhoria da rentabilidade das propriedades rurais. “Quando o produtor reduz perdas no campo e ganha visibilidade com um produto valorizado, ele melhora o desempenho econômico e abre espaço para investir em sustentabilidade”, explicou.
Para Poletti, o principal desafio ainda está na comunicação entre os elos da cadeia, especialmente na valorização do esforço diário do produtor. “O produtor precisa estar bem financeiramente para poder pensar em sustentabilidade. E o Mip Day é um passo importante para dar visibilidade a esse trabalho”, concluiu.
Indústria reforça compromisso com boas práticas e COP30
Representando a CropLife Brasil, Cláudia Quaglierini destacou o papel das tecnologias agrícolas como parte da solução climática e não apenas da produção. Ela afirmou que o setor chega à COP30 com propostas concretas de mitigação de gases de efeito estufa e práticas sustentáveis já consolidadas no Brasil.
“A agropecuária tropical brasileira pode oferecer respostas reais às mudanças climáticas. A tecnologia agrícola é parte da solução — seja com biológicos, biotecnologia, defensivos ou programas de boas práticas como o Aplicador Legal, que capacita produtores e operadores para o uso responsável dos produtos”, afirmou Cláudia.
Ela ressaltou ainda que o Brasil está preparado para se consolidar como referência mundial em agricultura sustentável e regenerativa, combinando produtividade e preservação ambiental. “Usando adequadamente todas as tecnologias, a agricultura se torna cada vez mais sustentável e produtiva — e isso é algo que já conseguimos demonstrar”, completou.
Produtores reforçam importância da rastreabilidade e do manejo integrado
Entre os produtores presentes, Jorge Amorikawa, proprietário da Saladas Finas que começou suas atividades ainda na década de 60, destacou que o evento trouxe mais clareza sobre a importância da rastreabilidade e da compreensão de toda a cadeia produtiva. “Quando a gente entende todas as etapas da cadeia, consegue aprimorar o manejo e ter uma visão de futuro. É um aprendizado que ajuda a tornar o trabalho mais eficiente”, comentou.
Amorikawa contou que há anos adota manejo alternativo com uso de produtos naturais, microbiológicos e inimigos naturais no controle de pragas, além de investir na fertilidade e equilíbrio biológico do solo. Para ele, o desafio atual é otimizar recursos e agregar valor ao produto e ao ambiente de trabalho no campo. “O futuro é ter um produto mais saudável e um ambiente mais atrativo para as novas gerações continuarem no campo”, resumiu.

Já Lauro Andrade, produtor de tomate em Sumaré, afirmou que o uso de biológicos se tornou indispensável para o equilíbrio do ecossistema agrícola. “O químico sozinho não dá conta da pressão de pragas e doenças. O biológico traz equilíbrio e contribui para um produto de qualidade, com zero resíduos”, afirmou.
Segundo ele, práticas como gotejamento, fertirrigação e uso racional da água já são realidade no campo e devem se consolidar como tendências para o futuro. “O produtor precisa estar atento ao melhoramento constante das moléculas biológicas e às novas tecnologias. É o caminho para permanecer competitivo e sustentável”, destacou.
Varejo vê consumidor mais atento e engajado
O representante do Carrefour, Daniel Figueiró, explicou que a rede tem trabalhado em sinergia com o programa MipExperience desde 2023, integrando seus pilares ao projeto Garante de Origem, voltado à rastreabilidade e qualidade dos alimentos. “O consumidor quer saber de onde vem o produto e como ele foi produzido. É um caminho sem volta. O varejo tem a responsabilidade de levar essa informação para o consumidor final”, afirmou.

Daniel Figueiró, coordenador de marcas próprias do Carrefour
Segundo Figueiró, as exigências de auditorias e certificações podem assustar no início, mas trazem organização, visibilidade e acesso a novos mercados para os produtores.
“Quando o produtor entende o valor dessas práticas, ele percebe que está agregando valor ao produto e abrindo portas para novos mercados”, completou.
Holambra como vitrine da inovação agrícola
O evento foi sediado em Holambra por sua importância no setor de flores e hortaliças, com cerca de 400 produtores instalados na região.
Marcelo Poletti reforçou que o Mip Day marca o início de um movimento que deve ganhar escala nacional nos próximos anos. A partir de 2026, o evento deve chegar a outras regiões agrícolas e abranger culturas como milho e soja, ampliando o alcance do MIP e dos biológicos no país. “A agricultura contribui de forma positiva para a mitigação das mudanças climáticas. O produtor precisa olhar para o todo, adotar ferramentas de boas práticas e enxergar a sustentabilidade como parte da gestão do negócio”, concluiu Poletti.