Não se ganha, se toma

A luz da manhã entrou naquele ônibus sem pedir licença. Seguiu com a gente, sacolejando igual, entre o silêncio dos viajantes e o ronco de um motor cansado. Eu observava a paisagem, o mundo de fora e de sempre: carros, árvores, postes, fumaça… nuvens caladas ao sabor do vento.

No banco à frente, dois homens, ambos por volta dos trinta. Um vestindo camisa social azul, com crachá pendurado no bolso; o outro, camiseta preta e fones de ouvido repousando no pescoço. Tinham a aparência comum dos que trabalham em escritório, indústria ou comércio.

Falavam de coisas miúdas, como o Carnaval que tinha acabado de passar. Conversa de quem usa as palavras apenas para preencher o vazio do caminho.

– O ano começa somente agora… depois do Carnaval. Antes disso, tudo é apenas preparação, ensaio para o grande momento do Brasil real – disse o de camisa azul. O colega concordou e deu corda:

– Nada mais natural… Somos, em suma, um país de gente feliz.

Aí, acontece o inevitável… a política entra, se acomoda entre eles.

– O ano promete… ano eleitoral. Quem você acha que ganha dessa vez: Flávio Bolsonaro ou Lula? – pergunta o de azul, acomodado junto à janela.

O outro não responde de imediato. Mexe no fone, ajeita-se melhor num assento pequeno para o seu tamanho.

– Quem ganha, sinceramente não sei – disse então, com uma voz de quem já não se espanta com o escuro. – O problema é que, por aqui, parece que eleição não se ganha. Eleição se toma.

Houve um silêncio. Desses que a gente sente no estômago.

– O Flávio tem potencial pra isso? – seguiu falando. – Pelo que se vê, ele pretende jogar nas quatro linhas da Constituição, como o pai.

– Concordo… o jogo é bruto.

– Sem urnas auditáveis, sem voto impresso, por mais que digam o contrário, ninguém dorme tranquilo.

Você sabe quem são os parceiros do Brasil nesse sistema de votação? Bangladesh e Butão. Cerca de vinte outros países também adotaram urnas eletrônicas, mas a maioria utiliza mecanismos de conferência física ou já as abandonou… caso da Holanda e Alemanha.

Fiquei ouvindo aquilo, e senti o frio da sua lógica. Eleição se toma.

A frase ficou suspensa no ar viciado do ônibus, flutuando entre o cheiro de diesel e o mormaço da manhã.

Percebi, então, que aqueles dois homens não discutiam apenas poder. Discutiam a nossa irrelevância.

A cidade grande já se insinuava no horizonte, com seus prédios e viadutos. Pensei que o Brasil talvez more exatamente nesses intervalos: entre Cosmópolis e Campinas, entre o trabalho e o sonho, entre a crença e a dúvida absoluta.

No sacolejo discreto do ônibus, dois cidadãos tentavam entender o país, enquanto ele seguia indiferente pela faixa da esquerda.