Anticoncepcional para pets não é inofensivo: um risco que ainda precisamos discutir
Caro leitor, nos últimos dias algumas pessoas me procuraram para perguntar sobre os chamados “inibidores de cio” ou “anticoncepcionais” para cães e gatos. Infelizmente, esses produtos ainda são encontrados à venda e, algumas vezes, tutores relatam que receberam a indicação até mesmo em estabelecimentos agropecuários. Por isso, achei importante trazer esse assunto para a coluna de hoje: impedir o cio com hormônios pode parecer uma solução simples e barata, mas não é uma escolha isenta de riscos.
Há cerca de três anos, atendi uma gatinha que nunca esqueci. Ela chegou com toda a cadeia mamária extremamente aumentada, tensa e com áreas importantes de comprometimento da pele, e ela não resistiu. O quadro era compatível com hiperplasia mamária fibroadenomatosa, uma proliferação benigna, porém potencialmente muito grave.
Esses medicamentos atuam interferindo hormonalmente no ciclo reprodutivo. O problema é que a ação hormonal não fica restrita ao comportamento do cio. Os progestágenos também exercem efeitos sobre o útero, as glândulas mamárias e o metabolismo. O uso de progestágenos exógenos está associado à hiperplasia endometrial e pode favorecer o desenvolvimento de alterações uterinas e piometra, uma infecção uterina potencialmente fatal. Em gatos, a exposição a esses hormônios também é reconhecida como desencadeadora da hiperplasia mamária fibroadenomatosa. Há ainda associação descrita entre exposição a fármacos semelhantes à progesterona e doença mamária.
Caro leitor, talvez a parte mais preocupante seja justamente a sensação de segurança que uma aplicação ou comprimido pode transmitir. O cio desaparece e parece que o problema foi resolvido. Entretanto, estamos interferindo em um sistema hormonal complexo. Dependendo do princípio ativo, dose, frequência, momento do ciclo e características individuais do animal, as consequências podem ser importantes e algumas só aparecem posteriormente.
Por isso, se a intenção é evitar reprodução, converse com o Vet de Confiança sobre a estratégia mais adequada para aquele animal. A decisão sobre esterilização também deve ser individualizada, considerando espécie, idade, condição clínica e contexto do paciente. O que não devemos fazer é administrar hormônios por conta própria simplesmente para “cortar o cio”. E se alguém oferecer uma injeção anticoncepcional ao seu cão ou gato, pergunte qual é o princípio ativo, quais são os possíveis efeitos adversos e converse com um médico-veterinário antes de autorizar a aplicação.
A imagem que acompanha esta matéria é justamente daquela gatinha que mencionei no início do texto, atendida por mim há cerca de três anos. Foi um caso que me marcou bastante, não apenas pela extensão das alterações mamárias, mas por saber que tudo começou com uma tentativa aparentemente simples de impedir o cio.
Infelizmente, ela não foi um caso isolado. Ao longo dos meus quase 20 anos de Medicina Veterinária, já acompanhei diversos animais que chegaram com complicações após o uso de medicamentos hormonais para inibir o cio. Alguns apresentavam alterações mamárias semelhantes, enquanto outros desenvolveram diferentes problemas relacionados ao sistema reprodutivo e à exposição hormonal.
É justamente por ter visto essas consequências de perto tantas vezes que considero tão importante falar sobre o assunto. Quando algumas pessoas me procuraram nos últimos dias perguntando sobre esses medicamentos, percebi que essa informação ainda precisa chegar a muitos tutores. Um produto estar disponível para compra não significa que seja uma escolha segura para o seu animal. Antes de tentar interromper o cio de uma cadela ou gata, procure orientação médico-veterinária e conheça os riscos e as alternativas disponíveis.

Dra Cinthia Murias
Médica Veterinária CRMV 27.622/SP
Buddy Clube de Saúde para Pets Instagram: @planobuddy www.buddyvetclub.com
(19) 99655-4114