Muito antes do rodeio: como Jaguariúna construiu sua identidade country
Dos antigos caminhos de tropeiros ao nascimento do rodeio em 1989, a história ajuda a explicar uma relação com o campo que hoje faz parte da identidade da cidade
Setembro chega e Jaguariúna parece mudar um pouquinho.
As botas e os chapéus ganham as ruas, o sertanejo toca mais alto, as vitrines entram no clima e as conversas começam a girar em torno de uma das épocas mais aguardadas do ano. Para quem mora aqui, é difícil passar por setembro sem perceber: é tempo de rodeio.
Hoje, essa relação parece tão natural que é fácil imaginar que Jaguariúna sempre tenha sido uma cidade de rodeio. Mas não foi exatamente assim.
Muito antes das grandes arenas, dos shows, das luzes e das multidões, a ligação da região com o campo já estava sendo construída por outros personagens: tropeiros, boiadeiros, agricultores, cavaleiros e famílias que fizeram da vida rural parte da história local.
Então, enquanto Jaguariúna se prepara para mais uma edição de sua maior festa, vale voltar no tempo e perguntar: afinal, de onde veio essa identidade country?
UMA HISTÓRIA QUE COMEÇA ANTES DO RODEIO
A resposta nos leva muito além de 1989.
A formação da região onde hoje está Jaguariúna está ligada ao antigo Caminho dos Goyazes, rota utilizada durante o período colonial por viajantes que seguiam em direção ao interior do território.
Ao longo desse caminho surgiram pousos, pontos de abastecimento e propriedades rurais. Um deles, conhecido como Pouso do Jaguary, ficava entre os rios Atibaia e Jaguari e ajudou no processo de ocupação da região.
Com o passar do tempo, vieram atividades agrícolas como a cana-de-açúcar e, principalmente, o café, fortalecendo ainda mais o caráter rural que marcou o desenvolvimento local.
Isso não significa que Jaguariúna já tivesse uma tradição de rodeios. Significa que cavalos, propriedades rurais e atividades ligadas ao campo faziam parte da vida da região muito antes de existir uma arena.
Essa relação também permaneceu presente em manifestações tradicionais da cidade. Um exemplo é a Cavalaria Antoniana, que atravessou décadas reunindo cavaleiros e mantendo viva parte dessa cultura equestre.
MAS QUANDO O RODEIO ENTROU NESSA HISTÓRIA?
Foi em 1989 que uma nova tradição começou a nascer.
A primeira edição do Rodeio de Jaguariúna foi realizada no chamado Campo do Padre, no Centro. A festa reuniu montarias em touros e cavalos e apresentações sertanejas, com nomes como Nalva Aguiar e Mato Grosso e Mathias.
Cerca de 18 mil pessoas participaram daquela primeira edição.
Curiosamente, registros sobre o início da festa mostram que Jaguariúna ainda não possuía naquele momento uma tradição consolidada especificamente em rodeios.
O que existia era uma cidade com fortes raízes rurais e uma população que abraçou aquela nova festa.
E abraçou de verdade.
Em 1990, o público já teria chegado a aproximadamente 30 mil pessoas.
No ano seguinte, Jaguariúna passou a realizar o chamado rodeio completo, reunindo oito modalidades. Em 1991, a cidade e a própria festa também serviram de cenário para gravações dos capítulos finais da novela “Ana Raio e Zé Trovão”.
O rodeio começava a ultrapassar as fronteiras do município.
DO CAMPO DO PADRE PARA UMA FESTA CADA VEZ MAIOR
Em 1992, o evento deixou o Campo do Padre e passou a ser realizado no Parque Santa Maria. Naquele ano, aproximadamente 45 mil pessoas acompanharam a programação.
Em 1993, o público chegou a cerca de 60 mil pessoas e Jaguariúna recebeu uma etapa do campeonato Espora de Ouro.
No ano seguinte veio o primeiro show internacional.
Em 1995, a festa já tinha uma programação de dez dias e misturava as provas de rodeio com grandes apresentações musicais.
Em poucos anos, aquilo que havia começado como uma festa abraçada pela comunidade ganhou tamanho, público e projeção.
E, aos poucos, aconteceu algo ainda maior: o rodeio deixou de ser apenas um evento realizado em Jaguariúna e passou a participar da maneira como a própria cidade era reconhecida.
QUANDO A FESTA VIRA PARTE DA CIDADE
Décadas depois daquela primeira edição, a cultura country já ultrapassou os portões do rodeio.
Ela aparece nas festas tradicionais, no comércio, na gastronomia, nas manifestações culturais e até na maneira como Jaguariúna se apresenta para quem vem de fora.
Em 2023, por exemplo, o Festival Gastronômico do município adotou o rodeio como tema, levando estabelecimentos da cidade a criarem pratos inspirados na festa.
Em 2024, a história do evento chegou ao palco do Teatro Municipal por meio do espetáculo “Jaguariúna – Um Espetáculo de Rodeio”, apresentado por alunos da Escola das Artes.
Em maio de 2026, essa identidade chegou também ao Congresso Nacional. A Câmara dos Deputados aprovou o projeto de lei que reconhece Jaguariúna como “Capital Country do Brasil”. A proposta foi encaminhada ao Senado e ainda aguarda análise. Portanto, o reconhecimento nacional ainda não é definitivo.
É uma transformação curiosa.
Jaguariúna não nasceu como “cidade do rodeio”. Mas o campo estava aqui muito antes dele. Os caminhos, os cavalos, as propriedades rurais e as tradições equestres ajudaram a preparar um terreno cultural no qual, décadas depois, o rodeio encontraria espaço para crescer.
E talvez seja justamente por isso que a festa tenha criado raízes tão profundas.
DE VOLTA A SETEMBRO
Agora, 37 edições depois daquela primeira festa no Campo do Padre, Jaguariúna novamente começa a entrar no clima.
O Jaguariúna Rodeo Festival 2026 será realizado nos dias 18, 19, 25 e 26 de setembro, reunindo novamente provas de arena, grandes nomes da música e visitantes de diferentes partes do país.
Mas, para quem conhece a história, o rodeio de hoje também carrega um pouco de tudo aquilo que veio antes.
Dos antigos caminhos percorridos pelo interior paulista às primeiras arquibancadas lotadas no fim dos anos 1980, muita coisa mudou.
A arena cresceu. Os palcos ficaram maiores. O público se multiplicou.
Mas, quando setembro chega e Jaguariúna coloca novamente a bota e o chapéu, uma história que começou muito antes do primeiro rodeio parece ganhar vida outra vez.
Foto: Acervo Casa da Memória de Jaguariúna
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