Projeto aproxima estudantes da ciência, da biodiversidade e das abelhas nativas
Foto: Cristina Tordin
Visita à Embrapa Meio Ambiente integra iniciativa de escola municipal que usa o cajueiro como ponto de partida para investigar biodiversidade, sustentabilidade e produção de alimentos
A curiosidade despertada pela leitura de um livro sobre cajueiros levou crianças do 4º ano do ensino fundamental da rede municipal de Campinas, SP, a ampliar o olhar sobre a biodiversidade, a ciência e o meio ambiente. Como parte do projeto “Guardiões do Cajueiro: Biodiversidade e Vida”, professores e estudantes visitaram a Embrapa Meio Ambiente, em 28 de setembro e 1º de outubro de 2026.
A iniciativa faz parte do PESCO, projeto da Secretaria Municipal de Educação de Campinas, que conta com parceria da Embrapa. A escola está localizada em uma área rural e, além do interesse pelo cajueiro, os estudantes convivem com abelhas e outras espécies de plantas e animais no ambiente escolar. Por isso, o projeto pretende ampliar as investigações para a flora e os polinizadores da região.
Durante a primeira visita, a professora Juliana da Cruz Leme, especialista em Psicopedagogia e em Letramento e Alfabetização, acompanhou os estudantes em atividades voltadas à aproximação entre o conhecimento produzido pela pesquisa científica e a realidade vivenciada pelas crianças.
A proposta nasceu a partir da leitura de A Cinderela dos Cajueiros. A história estimulou discussões sobre o consumo de recursos naturais, o desmatamento, as queimadas e seus impactos sobre o ambiente. As crianças também foram convidadas a pensar em soluções para a preservação da natureza, como a guarda de sementes e a produção de materiais de conscientização para a comunidade.
“O objetivo é ser um diferencial na vida das crianças e de toda a comunidade escolar”, explica a professora. Segundo ela, a intenção é explorar o cajueiro a partir de diferentes perspectivas, envolvendo produtividade, economia, ecologia, aspectos sociais e cultura.
Embora o cajueiro não seja uma espécie característica da região Sudeste, o interesse das crianças pela planta permanece. Elas querem plantar sementes, acompanhar o desenvolvimento das mudas, conhecer o fruto e o pseudofruto e experimentar produtos derivados do caju. A professora também buscou contato com a Embrapa Agroindústria Tropical, em Fortaleza, CE, Unidade que concentra pesquisas relacionadas à cultura do cajueiro.
A experiência, entretanto, ganhou uma dimensão regional com a aproximação da escola com a Embrapa Meio Ambiente. “Queremos muito incluir a cultura das abelhas e plantas da nossa região no projeto”, destaca a professora.
Do cajueiro à biodiversidade local
O projeto foi organizado em diferentes frentes de investigação. Uma delas é o “Berçário de Nativas”, no qual os estudantes pretendem acompanhar a germinação de sementes e observar a influência de fatores como luz, água e solo no desenvolvimento das plantas.
A proposta inicial previa o cultivo apenas do cajueiro. Após pesquisas realizadas pelas próprias crianças, porém, o grupo decidiu ampliar a experiência e incluir espécies mais adaptadas às condições climáticas e ao território onde vivem.
Outra frente será o “Inventário da Flora Local”, destinado a identificar árvores frutíferas e espécies nativas existentes no entorno da escola e nas proximidades das casas dos estudantes. A atividade pretende aproximar o conteúdo do livro da realidade botânica observada pelas crianças.
O “Laboratório de Decomposição” deverá permitir que os alunos formulem e testem hipóteses sobre o que acontece com sementes e resíduos orgânicos no solo, comparando-os com materiais não biodegradáveis, como plástico e metal.
Já a campanha “Cinderela Sustentável” prevê a produção de diários de bordo, infográficos e cartas para a comunidade, com informações sobre a importância das árvores para o clima e a conservação ambiental.
Para Juliana Leme, o trabalho permite que o cajueiro deixe de ser apenas um fruto estudado em sala de aula e passe a ser compreendido como elemento da biodiversidade e da cultura brasileira. Ao mesmo tempo, a investigação sobre as espécies encontradas no território ajuda as crianças a reconhecerem o patrimônio natural existente no próprio entorno.
Na segunda visita, os estudantes foram acompanhados pelas professoras Ana Carolina Rocha e Lucy Martelozo.
Abelhas entram na investigação
A visita à Embrapa Meio Ambiente abriu espaço para outros temas de interesse das crianças: a pesquisadora Kátia Braga, com atividades prática e dinâmicas, desenvolveu alguns conteúdos sobre as abelhas nativas, com e sem ferrão, a polinização, a produção agrícola e a conservação da natureza e dos polinizadores.
Sobre polinização, a pesquisadora, com o auxílio das bolsistas Fernanda Rodrigues de Oliveira e Luara Maria Zago, utilizou flores de astromélia, acondicionadas em potinhos plásticos, e propôs aos alunos que tocassem as estruturas florais e percebessem como os grãos de pólen aderem ao corpo das abelhas durante sua visita às flores. Também foi conduzida uma dinâmica onde parte dos estudantes representaram árvores de cajueiro floridas e outra parte seus polinizadores e, este últimos, foram convidados a visitar e a polinizar essas flores.
Segundo a pesquisadora, a diversidade de abelhas desempenha papel fundamental na reprodução das plantas com flores e na produção de alimentos. No Brasil, aproximadamente 80% das plantas silvestres e cultivadas relacionadas à produção de alimentos contam com a participação desses insetos na polinização. A polinização realizada por essa diversidade de abelhas contribui para a produção de frutas, verduras, legumes, grãos, sementes e fibras, além de participar da manutenção de florestas e de outros ecossistemas.
Como parte da diversidade de abelhas brasileiras, as abelhas-sem-ferrão, grupo que reúne cerca de 300 espécies, se destacam por serem abelhas sociais que produzem mel e podem ser criadas zootecnicamente. Durante a visita, os estudantes também puderam conhecer diversas espécies de abelhas-sem-ferrão mantidas no Meliponário Experimental da Embrapa Meio Ambiente e observar as estruturas existentes no interior de uma colmeia de mandaçaia, uma espécie de abelha-sem-ferrão de maior porte, comum nas matas primárias da Mata Atlântica.
“Conhecer e ter contato com essa riqueza de abelhas é um passo importante para a sensibilização desse público sobre a necessidade urgente de conservação das abelhas nativas do Brasil para assegurar a produção de alimentos e a manutenção e recuperação das florestas, explica Kátia Braga. Segundo ela, no contexto atual da crise climática e da biodiversidade, a conservação dos polinizadores não depende apenas da restauração dos ambientes naturais e da redução do desmatamento, mas também da transformação profunda do sistema dominante de produção de alimentos, ou seja, do modelo convencional de agricultura e de pecuária que predomina em nosso país.
Nesse contexto, conhecer e visitar o Meliponário Experimental da Embrapa Meio, proporciona aos estudantes e professores a oportunidade de melhor compreender a riqueza da nossa fauna de abelhas – tamanhos, cores, comportamentos. Trata-se de uma pequena mostra das mais de 1700 espécies de abelhas nativas, com e sem ferrão, existentes no Brasil.
Para Kátia Braga, conhecer essa riqueza de abelhas, saber onde vivem e como vivem na natureza é fundamental para a conservação da biodiversidade e para a manutenção dos serviços ecossistêmicos dos quais a sociedade humana depende para viver.
Ciência começa com perguntas
A experiência da escola com o projeto “Guardiões do Cajueiro” busca justamente transformar a curiosidade infantil em perguntas e experimentos. Ao acompanhar a germinação de uma semente, identificar uma árvore no entorno da escola, observar a decomposição de materiais ou conhecer o trabalho de uma abelha, os estudantes passam a relacionar conteúdos científicos com situações presentes no cotidiano.
O trabalho também permite abordar temas previstos no currículo do 4º ano, como o ciclo de vida, ao mesmo tempo em que estimula a observação, o registro e a formulação de hipóteses.
A expectativa da escola é ampliar as parcerias e construir uma rede de conhecimentos que envolva pesquisadores, professores, estudantes e comunidade. O projeto deverá reunir, assim, duas dimensões: o estudo do cajueiro, espécie originária do Brasil e fortemente associada à cultura e à produção agrícola de outras regiões do País, e a investigação da biodiversidade presente no território das crianças.
Embrapa & Escola
A visita integra as ações do Programa Embrapa & Escola, desenvolvido pela Embrapa Meio Ambiente para aproximar estudantes do ensino fundamental e médio, de escolas públicas e particulares, do conhecimento científico produzido pela pesquisa agropecuária e ambiental.
O programa busca divulgar e popularizar a ciência, mostrando sua relação com a agricultura, o meio ambiente e a produção e qualidade dos alimentos consumidos pela sociedade.
As escolas interessadas podem agendar palestras presenciais, escolhendo dois temas por visita. Cada atividade tem duração de aproximadamente 50 minutos. As visitas são preferencialmente realizadas às quartas-feiras, das 9h às 11h, e as turmas devem ter no máximo 40 alunos, acompanhados por dois professores.
Também são oferecidas palestras na própria escola e atividades virtuais. Para o agendamento, é necessário informar o nome da escola, contato do responsável, número de turmas e estudantes, série e nome do professor responsável. O transporte até a Embrapa fica a cargo da escola.
Ao final das atividades presenciais, os estudantes são convidados a produzir uma redação ou desenho, de acordo com a série, para compartilhar com a Embrapa Meio Ambiente.
Agendamento: cristina.tordin@embrapa.br