05 de Outubro seria o “18 Brumário” do PT?

Milhões de brasileiros viveram ontem uma experiência democrática restrita. Seu voto elegeu governadores, deputados, senadores e levou ao segundo turno os postulantes ao cargo de principal governante do país e diferenças reais, entre os candidatos, tornaram a eleição muito relevante. Mas só os muito ingênuos engolem o velho slogan que viveremos a “festa da democracia”, estamos longe disso.

Alguns fatos importantes ocorreram como a vitória do PCdoB no Maranhão que impôs derrota acachapante ao candidato do clã Sarney e a vitoria do PT na Bahia em 1º. turno, fato eu desmoralizou os institutos de pesquisa que indicavam que o petista não teria mais que 20% dos votos.

Mas sou pontepretano, campineiro e paulista e vou comentar o resultado das eleições no meu estado. O PT em São Paulo, a esquerda em geral (PCdoB, inclusive) colheu uma derrota constrangedora no estado.

O PT e o PCdoB no estado de São Paulo não foram exatamente “varridos do mapa” nessas eleições, mas a votação expressiva de Aécio Neves no estado, quase 11 milhões de votos, contra pouco mais de 5 milhões de votos dados à presidente Dilma, a diminuição significativa da bancada petista na Câmara dos Deputados, a perda de uma cadeira no Senado, perda de cadeiras na Assembleia Legislativa e o desempenho sofrível de seu candidato ao governo representam, no meu ponto de vista, que a mesma classe média que sempre apoiou o PT não o vê como seu representante, mas por quê?

É verdade que a mídia bandeirante é implacavelmente contraria ao PT, amplamente favorável a Aécio e aos diversos candidatos de oposição, esse é um elemento importante, mas não é a causa principal.

A OPÇÃO DA CLASSE MÉDIA
Penso que e elemento de reflexão é a opção da classe média pelos candidatos e partidos de direita. E isso ocorre menos pelos erros do PT e mais pela sua opção em atender através de políticas sociais as classes “c” e “d”.

Teria sido a classe média paulista cooptada pelos setores mais conservadores com seu discurso sedutor? É possível, e não teria sido a primeira vez. Foi assim no tempo de Getulio, Juscelino e João Goulart.

Quando ouvi a Marilena Chauí dizer que a classe média é fascista, violenta e ignorante, tive a reação que provavelmente todos tiveram fiquei perplexo e rejeitei a tese, afinal não dá para pensar em um país menos desigual sem uma classe média forte e o aumento da classe média tem sido visto como sinal de desenvolvimento do país, de redução das desigualdades, de equilíbrio da pirâmide social, ou mais, de uma positiva mobilidade social, em que muitos têm ascendido na vida a partir da base. A classe média seria como que um ponto de convergência conveniente para uma sociedade mais igualitária. Para a esquerda, sobretudo, ela indicaria uma espécie de relação capital-trabalho com menos exploração.

Mas a classe-média paulista não votou no PT, porque revelou-se reacionária e fundamentalmente meritocrática e, como sabemos, a meritocracia está na base de sua ideologia conservadora e se opõe à democracia em vários aspectos estruturantes dessa.

Assim, boa parte da classe média é contra as cotas nas universidades, pois a etnia ou a condição social não são critérios de mérito; é contra o bolsa-família, pois ganhar dinheiro sem trabalhar além de um demérito desestimula o esforço produtivo; quer mais prisões e penas mais duras porque meritocracia também significa o contrário, pagar caro pela falta de mérito; reclama do pagamento de impostos porque o dinheiro ganho com o próprio suor não pode ser apropriado por um Governo que não produz muito menos ser distribuído em serviços para quem não é produtivo e não gera impostos. É contra os políticos porque em uma sociedade racional, a técnica, e não a política deveria ser a base de todas as decisões: então, deveríamos ter bons gestores e não políticos. Tudo uma questão de mérito. Triste isso, mas real no nosso estado…

Mas por que a classe média seria mais meritocrática que as outras? Isso tem a ver com a história das políticas públicas no Brasil. No Brasil nunca existiu um verdadeiro Estado do Bem Estar Social como o europeu, que forjou uma classe média a partir de políticas de garantias públicas.

O nosso Estado no máximo oferecia oportunidades, vagas em universidades públicas no curso de medicina, por exemplo, mas o estudante tinha que enfrentar 90 candidatos por vaga para ingressar. O mesmo vale para a classe média empresarial, para os profissionais liberais, etc. Para estes, a burocracia do Estado foi sempre um empecilho, nunca uma aliada. Mesmo a classe média estatal atual, formada por funcionários públicos, é geralmente concursada, portanto, atingiu sua posição de forma meritocrática. Então, a classe média brasileira se constituiu por mérito próprio, e como não tem patrimônio ou grandes empresas para deixar de herança para que seus filhos vivam de renda ou de lucro, deixa para eles o estudo e uma boa formação profissional, para que possam fazer carreira também por méritos próprios. Acho que isto forjou o ethos meritocrático da nossa classe média, ethos que se opõe às políticas sociais desenvolvidas pelo PT e seus aliados. Esse conflito seria mitigado com mais democracia, mais debate.

A BUROCRACIA PARTIDÁRIA
Some-se a isso tudo o fato de que, apesar de a Presidente Dilma ter liderado e vencido no 1º. turno a corrida presidencial, setores do próprio PT foram seus maiores adversários e podem, lamentavelmente, levar a presidente à derrota.

A quais setores eu me refiro?

Aos que, diferentemente da presidente e de Lula, passaram a crer que o país não existia antes deles, aqueles que se tornaram desprezíveis burocratas e distanciaram-se das ações socialmente

validades e sustentáveis. Falo da burocracia partidária, a qual assemelha-se às castas, pelo fato de encontrar-se sempre pronta a cerrar os olhos perante os mais grosseiros erros dos seus chefes em política geral se, em contrapartida, estes lhe forem absolutamente fiéis na defesa dos seus privilégios.

Será possível fazermos um paralelo entre a derrota do PT no estado de São Paulo nesse 05 de outubro de 2014 e o que ocorreu na França do século XVIII (quando a pós-revolução burguesa foi derrotada pela aristocracia com apoio da burguesia)?

Penso que sim.

Reli recentemente o “18 Brumário de Luiz Bonaparte” elaborado por Marx. O “18”, vou chama-lo assim, procura compreender por que do fracasso da revolução na França e as razões do golpe de Estado de Luiz Bonaparte.

Contextualizando: Karl Marx escreveu a obra o “18 BRUMÁRIO DE LUIZ BONAPARTE” entre 1851 e 1895. Brumário é o segundo mês do calendário republicano, na França (23 de outubro a 21 de novembro).

Nas quatro primeiras partes do “18” Marx faz um resumo do “Luta de Classes na França” e segue tratando dos fatos que ocorreram e culminaram com o Golpe de Estado de Luiz Bonaparte. Ele procurou analisar e explicar porque a revolução pós-burguesa, que se instalou depois da revolução burguesa de 1789, fracassou.

Esse é o fato histórico que vou usar para comparar com a derrota do PT no estado de São Paulo nas eleições desse 05 de outubro.

Bem, a revolução pós-burguesa fracassou porque a burguesia francesa do século XVIII impediu sua evolução e continuidade, em razão do viés social e popular que a revolução de 1789 tomou. E como a burguesia fez isso? Renunciando ao poder político, mas mantendo intacto o poder econômico sob seu controle absoluto.

Nasceu o bonapartismo e foi apresentada à História uma face pragmática da burguesia, seu desejo de poder através do controle da economia, sua face de classe, sua natureza não democrática e seu posicionamento enquanto classe. A revolução foi domesticada e depois disso ocorreu o golpe de Estado de Napoleão, é o 1º. Brumário. Teria sido a militância petista domesticada pelos 12 anos no poder?

O 5 de Outubro de 2014 revelou que a esquerda tem de refazer suas alianças com a classe média, com os micro e pequenos empresários, pois os setores conservadores no estado de São Paulo cooptaram e cooptam a classe média de diversas formas e ela, classe-média, que deveria ser aliada das classes sociais mais humildes acaba seduzida pela cantilena liberal e sonha ser elite, esse sonho faz com que ela rejeite todos que possam geram turbulência àqueles que a seduziram e que prometeram que nela [a classe média] será elite um dia.

O sonho da revolução pós-burguesa e o sonho de uma sociedade de iguais foi varrido por Bonaparte com ajuda da burguesia e ocorreu o retorno dos aristocratas e a ascensão da aristocracia burguesa. Esse 05 de Outubro seria o 18 Brumário do PT? Ainda não, mas se nada for feito ocorrerá exatamente isso.

A direção partidária, a militância e os simpatizantes terão três semanas para responder essas questões com ações políticas criativas, generosas e propositivas, ações que levem Dilma à vitória.

FINALIZANDO
Quanto a mim mantenho-me onde sempre estive, nas fileiras dos setores progressistas, dos trabalhadores, do micro, pequeno e médio empresário, confiante e com a certeza de que o Brasil pode e deve seguir avançando nas mudanças iniciadas em 2003, mas não tenho duvida alguma que o PT enfrentará no dia 26 de outubro a eleição mais dura de sua história e, independentemente do resultado é necessária uma reflexão honesta acerca da tática, das ações no governo e, em qualquer hipótese buscar a reconciliação com antigos companheiros que buscaram acolhida no PSB, PSOL, PV, afinal todos tem muito a dizer, aprender e ensinar.

Pedro Benedito Maciel Neto, 50, advogado, sócio da MACIEL NETO ADVOCACIA, autor de “Reflexões sobre o estudo do Direito”, ed. Komedi, 2007

 

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