Cenipa aponta 19 fatores na queda do avião da Voepass em Vinhedo
Relatório final cita falhas operacionais, problemas de manutenção, decisões da tripulação e deficiências na fiscalização da Anac; acidente matou 62 pessoas em agosto de 2024
O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos apresentou, nesta quinta-feira, 23 de julho, o relatório final sobre a queda do avião da Voepass ocorrida em Vinhedo. A tragédia, registrada em 9 de agosto de 2024, matou os 58 passageiros e os quatro tripulantes que estavam a bordo.
A aeronave ATR 72-500, de matrícula PS-VPB, havia decolado de Cascavel, no Paraná, com destino ao Aeroporto Internacional de Guarulhos. Durante o voo, o avião perdeu sustentação, entrou em uma condição conhecida como parafuso chato e caiu em uma área residencial de Vinhedo.
A investigação identificou 19 fatores que contribuíram ou podem ter contribuído para o acidente. Desse total, 15 foram classificados como contribuintes e quatro permaneceram indeterminados por não haver elementos suficientes para confirmar sua influência.
O Cenipa ressalta que as investigações aeronáuticas não buscam determinar culpa ou responsabilidade civil e criminal. O objetivo é identificar fatores contribuintes e emitir recomendações capazes de prevenir novos acidentes.
Entre os fatores considerados contribuintes estão aplicação dos comandos, atenção, atitude, condições meteorológicas adversas, coordenação de cabine, cultura do grupo de trabalho, cultura organizacional, julgamento de pilotagem, manutenção da aeronave, percepção, planejamento de voo, processo decisório, processos organizacionais, supervisão gerencial e atuação da Agência Nacional de Aviação Civil.
Os quatro pontos classificados como indeterminados foram capacitação e treinamento, estado emocional, influências externas e projeto da aeronave.
Formação de gelo e alertas ignorados
Segundo o relatório, a aeronave enfrentou condições favoráveis à formação severa de gelo durante praticamente todo o voo. A investigação também identificou falhas no sistema responsável pela remoção do gelo acumulado nas superfícies do avião.
O sistema de monitoramento teria emitido oito alertas relacionados à baixa velocidade e à degradação do desempenho da aeronave. Apesar dos avisos, os procedimentos previstos para recuperar a velocidade e reduzir os efeitos da formação de gelo não foram executados adequadamente pela tripulação.
Quando o alerta de perda de sustentação foi acionado, os pilotos aplicaram comandos de elevação do nariz da aeronave. De acordo com o Cenipa, a ação contrariou o procedimento indicado para a recuperação do avião, aumentou o ângulo de ataque e agravou a situação de estol.
A investigação também apontou problemas de atenção e coordenação na cabine. Conversas sobre assuntos pessoais teriam reduzido o monitoramento dos instrumentos e dos alertas. O Cenipa citou a possibilidade de ocorrência de cegueira e surdez por desatenção, fenômenos relacionados à dificuldade de perceber informações importantes em situações de elevada carga de trabalho.
Falhas na manutenção e na empresa
O relatório apontou uma cultura de normalização de desvios dentro da Voepass. Segundo a investigação, problemas técnicos identificados por pilotos e mecânicos nem sempre eram registrados formalmente no diário de bordo, o que permitia que aeronaves continuassem em operação sem que todas as falhas fossem devidamente avaliadas.
A aeronave apresentava dez itens com algum tipo de inoperância antes da decolagem. Um deles era uma falha no limpador de para-brisa. Pelas restrições previstas para o equipamento, o avião não poderia ter sido liberado caso houvesse previsão de chuva no aeroporto de origem, no destino ou no aeroporto alternativo.
O problema no limpador não foi apontado como responsável direto pela queda. No entanto, segundo o Cenipa, a restrição operacional deveria ter impedido que o avião decolasse de Cascavel nas condições meteorológicas previstas para aquele horário.
Fiscalização da Anac
A atuação da Anac também foi classificada como fator contribuinte. Conforme o relatório, auditorias e inspeções realizadas antes do acidente já haviam identificado irregularidades relacionadas à manutenção, à rastreabilidade de componentes, ao descumprimento de condições operacionais e à falta de registros formais de panes.
O Cenipa emitiu nove recomendações de segurança direcionadas à Anac e à Agência Europeia para a Segurança da Aviação. As medidas envolvem a revisão de procedimentos para voos com formação de gelo, aprimoramentos nos sistemas de alerta dos aviões ATR e mudanças nos processos de fiscalização e gerenciamento de riscos.
A Anac informou que fará uma análise técnica detalhada das conclusões e das recomendações relacionadas às suas atribuições. A avaliação deverá ser concluída em até 120 dias. A agência lembrou ainda que suspendeu as operações da Voepass em março de 2025 e cassou o certificado da companhia em junho do mesmo ano.
Em nota encaminhada ao g1, a Voepass afirmou que o acidente foi o episódio mais grave de sua história, destacou o apoio prestado às famílias das vítimas e declarou que continua colaborando com as investigações.
Fonte: g1 Campinas e Região, Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos e Agência Nacional de Aviação Civil
Foto: Carla Carniel/Reuters
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