Comunicação Indireta

Nem sempre conseguimos exprimir exatamente o que queremos. Ou o que nos vai n’alma. Porém, lendo textos alheios, podemos sentir a experiência de encontrar aquilo que gostaríamos de dizer. Sempre escrito de maneira até mais elegante, expressiva e convincente. Quando isso acontece, a vontade é se valer das palavras alheias para transmitir o sentimento intraduzível. Foi o que Pierre Hadot (1922-2010) fez ao final do livro que precisa ser lido por aqueles que ainda têm dúvida sobre a valia do estudo filosófico para a verdadeira formação humanística. O livro é um conjunto de entrevistas desse filósofo e historiador de filosofia do Collège de France, estudioso de filosofia antiga, instigado por Jeannie Carlier e Arnold I. Davidson: “A Filosofia como maneira de viver” (São Paulo, É Realizações, 2016).

Depois de dissecar seu pensamento, satisfazendo a curiosidade daqueles que se encantam com seus livros que tratam de Marco Aurélio ou de Plotino, do estoicismo e da mística, tem-se a mais absoluta certeza de que a filosofia não é a construção de sistemas, mas a escolha de um modo de vida. É a experiência pessoal que visa produzir um efeito de formação, um exercício a caminho da sabedoria.

Ao final, no posfácio, Pierre Hadot cita autores que não quis apenas mencionar nem comentar. “Comentá-los seria tirar-lhes o sabor. Eles falam por si só. Assim me comunicarei uma vez mais com meu leitor, mas de modo indireto”. Começa com Tchuang-Tse: “Eu conhecia do Tao apenas o que dele pode conhecer uma mosca de vinagre encerrada numa cuba. Se o mestre não houvesse levantado minha tampa, eu continuaria a ignorar o universo em sua integralidade grandiosa”. Quantos de nós somos “moscas de vinagre encerradas numa cuba”? Pensamos que sabemos tudo. Temos opiniões pré-formadas, pré-compreensões, julgamos abruptamente, aceitando teorias de conspiração e presumindo a má-fé. Quem é que levantará a tampa que nos mantém ignorantes da verdade?

José Renato Nalini, secretário da Educação do Estado de São Paulo

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