Racismo ambiental

Sou ecologista de carteirinha. Sunita ambiental. Fundamentalista verde. Sofro quando vejo a barbárie a devastar florestas, a conspurcar a água, a matar o solo e a juntar resíduo que transforma o planeta num grande lixão. Talvez por ser neto de um imigrante italiano que não tinha terra e que passou a vida a plantar, hábito que transmitiu a pelo menos um dos 14 filhos, o meu pai, sou também plantador. Coleto sementes, faço-as germinar, tento fazer compostagem, esverdearia o mundo se pudesse.

Todavia, não posso deixar de ouvir o lado contrário. Acostumei-me com o contraditório nos 40 anos de Judiciário. Assim, ouço com interesse o sociólogo Kenneth Gould, que afirma: “A ironia é que a indústria ecológica cria espaços urbanos sustentáveis e é socialmente insustentável”. Ele é diretor do programa de sustentabilidade urbana do Brooklyn College, da Universidade da Cidade de Nova York. Ele quer dizer que a recuperação de áreas deterioradas torna o ambiente mais agradável, só que expulsa o pobre. Até escreveu um livro, “Gentrificação Verde”, juntamente com Tammy Lewis, também da mesma Universidade. Foram eles que criaram a expressão “Racismo Ambiental”.

Sempre que se resgata uma área vulnerável da insuficiência de verde, o mercado imobiliário se apropria dela e expulsa o pobre. A receita seria obrigar as incorporadoras a produzirem, ao lado de um grande empreendimento, um conjunto de moradias para baixa renda. É o investimento em moradias mistas. No próprio conjunto de luxo, o empreendedor poderia reservar algumas unidades para baixa renda e fazer sorteios entre os sem moradias.

Não é tarefa viável diante das leis inflexíveis do mercado. Mas o empresariado haverá de concluir que o sistema de segregar estamento é potencialmente perigoso. Até para sobrevivência desta espécie de civilização, é urgente adotar práticas menos anacrônicas e hoje superadas. Construir uma sociedade harmônica, embora desigual, é uma alternativa.

José Renato Nalini, secretário da Educação do Estado de São Paulo

 

  

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