RECONCILIAÇÃO COM A REALIDADE

Pedro Benedito Maciel Neto

Nesses tempos de intolerância vivemos situações surreais em nosso cotidiano… Vivemos na sociedade do cansaço, como diz Leonardo Boff, na qual a aceleração do processo histórico e a multiplicação de sons, de mensagens, o exagero de estímulos e comunicações, especialmente pelo marketing pessoal e comercial, pelos celulares com todos os seus aplicativos, a superinformação das mídias sociais, etc., acabam até produzindo doenças, depressão, dificuldade de atenção e perda de sentido real da nossa existência.

Esses fatos nos transformam em vitimas desse verdadeiro fim dos tempos. Penso que temos de lutar contra isso e ter bem claro que esses tempos de relações disciplinadas pelo Código de Hamurabi não nos servem, por isso temos de recuperar o tempo em que as relações pessoais eram reguladas pelas virtudes humanas e divinas, tais como a amizade, compreensão, justiça, amor, generosidade, temperança, honestidade, respeito, perdão e tolerância.

E como fazemos isso? Vivendo tudo o que aprendemos em nossa caminhada, praticando as virtudes acima citadas e buscando a pacificação das relações com temperança, amizade e fundamentalmente a compreensão que fundamenta e possibilita o perdão. Antigamente, eu já sou de “antigamente”, as pessoas conversavam entorno de uma mesa para, direta e pessoalmente, encontrarem solução fraterna para quaisquer questões, sem transformar todos os mal-entendidos em questões a serem apuradas “no rigor da lei”; as famílias se visitavam para lanches da tarde e, sempre fraternalmente, compartilhavam alegrias e inquietações.

Esse compartilhar está distante de uma sociedade de relações virtuais ou liquidas como diz Bauman… Relações liquidas, amores líquidos e uma sociedade liquida. É isso que penso: temos que semear e cultivar virtudes e não fomentar o tempo todo tensão ou declarar decisões que definirão quem está certo ou errado, pois a vida é uma experiência breve, mas muito boa quando se percebe que o que importa é o afeto genuíno entre as pessoas; o afeto e a boa educação são a porta de entrada para uma vida virtuosa e feliz. É isso que eu penso.

Respeito e tolerância devem ser as virtudes a serem exercitadas.
Tenho a sorte de vir de uma família grande e muito divertida, onde há pontepretanos, bugrinos, corintianos, são-paulinos e palmeirenses; há católicos, protestantes, espíritas e ateus; na paleta de cores das convicções políticas há de tudo também… Mas nossas diferenças nunca nos impediram de conviver, sonhar e amar, o que nos fortalecia eram essas diferenças.

Minhas irmãs e eu tínhamos trinta e quatro primos, mais de duas dúzias de tios e tias, além das avós, avô, tias e tios-avôs e até tios-bisavós. As casas de nossas avós eram locais mágicos e cheirosos, para onde íamos naqueles domingos após a missa do Padre Geraldo Azevedo na Igreja do Carmo. O Natal e a Páscoa sempre foram datas tão especiais quanto os aniversários das avós e avô e nesses dias nos encontrávamos em sorrisos infinitos e podíamos brincar e sonhar.

Enfim, acredito que a família é instituição fundamental para a sobrevivência e desenvolvimento dos indivíduos e da humanidade. Se não existe a família, a sobrevivência cultural da humanidade corre perigo.

E uma família precisa sonhar e compartilhar os sonhos, educar criticamente os seus. Através do convívio lúdico com minhas irmãs, primos e primas que aprendi que os sonhos são dimensão infinita e necessária, caminho onde o impossível não tem espaço, sem sonhos não há crescimento, amadurecimento ou movimento.

No convício familiar, onde há amor genuíno, está a mais vigorosa a possibilidade do sonho, o sonho compartilhado é educativo, nos afasta da lógica nefasta do utilitarismo e oferece um canal para a confessarmos os nossos desejos.

As novas famílias nos seus desenhos atuais, também podem amar, sonhar e educar, Segundo o Papa Francisco, em discurso à União Internacional de Superiores Gerais, a igreja deve reconsiderar a nossa postura em relação aos filhos de casais homossexuais e de pais divorciados. Francisco afirmou que a estrutura familiar está mudando na atualidade.

O reconhecimento dessa mudança reconcilia a igreja com a realidade e isso é fundamental para que a hipocrisia (algo nada cristão), não impeça a reflexão que orienta nossas ações em relação à família e transformação, mas que continua sendo o local onde é possível compartilhar os sonhos e amar.

Sobre os divorciados o papa Francisco os aconselhou a fazer um exame de consciência sobre como agiram com os filhos quando o casamento entrou em crise, se é possível tentar uma reconciliação, quais consequências um novo casamento pode ter na família, etc., mas defendeu o acolhimento deles pela igreja e considerou a possibilidade de os católicos que se casaram novamente participarem dos sacramentos, pois as pessoas divorciadas que vivem uma nova união são parte da Igreja e não estão excomungados, pois ninguém pode ser condenado para sempre, pois esta não é a lógica do Evangelho.

As novas famílias e os divorciados devem ser integrados às comunidades cristãs e para isso é preciso analisar que várias formas de exclusão são ultrapassadas, pois “os efeitos de uma regra não podem sempre ser os mesmos”.
Parte da igreja católica, frequentemente em conflito com lésbicas, gays, bissexuais e a comunidade transgênero em relação ao casamento homossexual, deveria ouvir mais o Papa e Cristo que acolheu todos, sem julgar ninguém. Francisco, apesar de negar a possibilidade do casamento gay, recentemente ele declarou: “Se alguém é gay e busca o Senhor com sinceridade, quem sou eu para julgá-lo?”.

Na sua Exortação apostólica “Amoris laetitia – A alegria do amor”, que trata do amor na família,  afirma que “um ideal teológico do matrimônio demasiado abstrato, construído quase artificialmente, distante da situação concreta e das possibilidades efetivas das famílias tais como são”, ou seja,  é salutar aos cristãos prestar atenção à realidade concreta, porque os pedidos e os apelos do Espírito ressoam também nos acontecimentos da história através dos quais a Igreja pode ser guiada para uma compreensão mais profunda, inexaurível mistério do matrimônio e da família.

Enfim, apenas com a reconciliação da realidade será possível compreender as exigências do presente e os apelos do Espírito Santo.

Pedro Benedito Maciel Neto, 56, advogado, sócio da MACIEL NETO ADVOCACIA www.macielneto.adv.br – pedromaciel@macielneto.adv.br; autor de “Reflexões sobre o estudo do Direito”, ed. Komedi, 2007.

  

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