Mudança em protocolo de desengasgo exige atenção: Profissional explica como agir em casos de emergência
Alterações nas diretrizes internacionais de primeiros socorros atualizam a forma de realizar manobras em bebês, crianças e adultos; Cinaks Correia, Instrutor de Primeiros Socorros alerta para importância da capacitação.
O protocolo internacional de primeiros socorros acaba de mudar. A American Heart Association (AHA), referência mundial em cardiologia e emergência, atualizou as orientações sobre como agir em casos de engasgo, alterando o procedimento que há anos era ensinado em cursos, escolas e treinamentos. A principal novidade é o retorno das pancadas nas costas (chamadas de “capotagens”), que agora devem ser alternadas com compressões tanto em adultos quanto em crianças.
Quem explica as mudanças é o Enfermeiro e Bombeiro civil Cinaks Correia, Instrutor de Primeiros Socorros e Docente do curso Técnico de Enfermagem da Unifaj. Experiente na área de emergência, ele reforça que a atualização deve ser rapidamente disseminada, já que “um simples engasgo pode evoluir para parada respiratória ou cardíaca se o socorro não for feito corretamente”.
De acordo com o Ministério da Saúde, pelo menos 2 mil pessoas morreram por engasgo no Brasil em 2023. A AHA também destaca que 40% das paradas cardíacas infantis fora do hospital têm origem em emergências respiratórias ou asfixia. Por isso, entender o novo protocolo e divulgar corretamente a informação são passos fundamentais para reduzir esse tipo de ocorrência.
O que muda na prática
Segundo Cinaks Correia, o Brasil segue os protocolos da American Heart Association. “Antes, na criança, a manobra era feita com dois dedos no tórax.
Agora, a compressão deve ser realizada com a região hipotenar da mão — “o calcanhar” da mão. “Essa forma de aplicar pressão é mais eficaz, porque movimenta melhor o diafragma e o tórax, aumentando as chances de desobstruir as vias aéreas”, explica.
A AHA também alterou o protocolo para adultos. Agora, a recomendação é alternar cinco pancadas nas costas com cinco compressões abdominais. “Os estudos mostraram que as pancadas nas costas ajudam a deslocar o objeto antes das compressões abdominais”, reforça.
Nos bebês com menos de 1 ano, o procedimento continua sendo feito sem compressões abdominais, apenas com as pancadas nas costas e compressões torácicas, mas agora também utilizando o calcanhar da mão. A força aplicada deve ser controlada — não mais do que 4 centímetros de profundidade, respeitando a anatomia do bebê.

Quando chamar ajuda e o que não fazer
Mesmo quando o socorrista tem segurança para realizar as manobras, o especialista reforça que é obrigatório acionar o 192 (SAMU) ou 193 (Bombeiros) antes do procedimento.
“O atendimento deve ser avaliado por profissionais de saúde. Às vezes a pessoa parece bem, mas o corpo estranho pode ter causado pequenas lesões internas”, alerta.
Entre os erros mais comuns, ele cita a falta de calma, o uso de força excessiva e a tentativa de introduzir os dedos na boca da vítima. “O ideal é manter a calma, seguir o protocolo e acionar o socorro imediatamente”, reforça Cinaks Correia.
Além das novas diretrizes, o Enfermeiro chama atenção para a Lei Lucas (Lei nº 13.722/2018), que obriga escolas e creches, públicas e privadas, a oferecerem treinamento em primeiros socorros. A legislação surgiu após a morte do menino Lucas Begalli Zamora, de 10 anos, que faleceu engasgado durante um passeio escolar na cidade de Cordeirópolis em 2017.
“Infelizmente, no Brasil, a maioria das leis nasce de tragédias. O engasgo é uma das principais causas de morte evitável em crianças e idosos. Precisamos fazer a lei valer e levar o treinamento para todos os lugares — escolas, empresas, igrejas, clubes, escoteiros. Primeiros socorros deveriam ser disciplina obrigatória nas escolas”, defende Cinaks Correia, que também é Bombeiro Voluntário em Holambra-SP.
Como aprender a manobra
Hoje, há diversas formas de obter treinamento — presenciais e online, pagos ou gratuitos. “O ideal é procurar instrutores experientes certificados/credenciados, como Bombeiros Civis ou Enfermeiros com experiência teórica e prática. Muitas empresas oferecem cursos durante as SIPATs (Semanas Internas de Prevenção de Acidentes)”, indica o especialista.
Ele ressalta que o conhecimento não tem preço. “Primeiros socorros são o primeiro contato com a vítima e fazem toda a diferença antes da chegada da ambulância. Uma vida salva por um gesto simples mostra o quanto o preparo vale a pena.”
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