Diretor do Museu do Amanhã fala sobre os impactos das novas tecnologias em nossos corpos 

O físico Luiz Alberto Oliveira, diretor do Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, fala sobre os impactos das novas tecnologias na redefinição do que compreendemos como humano no segundo encontro da série “Desafios da identidade no mundo contemporâneo” do Café Filosófico CPFL. O debate acontece nesta sexta-feira, 22 de março, as 19h, com entrada gratuita, em Campinas, e transmissão ao vivo nas redes do Instituto CPFL. Nesta entrevista, ele adianta alguns temas que serão abordados no encontro e afirma: não estamos adaptados a manipular diretamente tantas informações como as disponíveis nas redes no mundo atual. “A dependência das telas, como se fossem uma nova variedade de drogas, é correlata a essa mediação indispensável entre nós e o Infoceano”.

Confira a entrevista:

As novas tecnologias nos desumanizaram? De que maneira sistemas de manifestações de afetos (gostei x não gostei, autorizo x bloqueio, amo x odeio) moldam nossa mente a uma concepção binária de interpretações e vivências?

Luiz Alberto Oliveira – Talvez se possa dizer que os avanços recentes das chamadas Tecnologias Exponenciais, altamente abrangentes e disruptivas, como as redes informacionais, puseram em movimento as antigas fronteiras entre os domínios do humano e do não-humano. Estas tecnologias têm a potência de fazer deslizar os marcos que distinguiam, de modo aparentemente claro e definido, o campo próprio dos humanos e sua exterioridade, e fazem isto tanto exportando caracteres que seriam intrinsecamente da ordem do sujeito humano para dispositivos artificiais (para Descartes, o manejo das operações aritméticas, bem como o uso da linguagem, seriam privativos da cognição humana; para comprovar essa assertiva, basta perguntar à Siri)  quanto importando e assimilando a nossos corpos, sentidos e mentes certos atributos e funções até então extra-humanos, como a capacidade de projetar e engendrar novos organismos. O processo de desumanização ocorre, assim, nos dois sentidos, e as reações, de entusiasmo ou revolta, parecem refletir as oportunidades e dificuldades de adaptar nossos corpos e cognições forjadas milenarmente ao longo do Pleistoceno a esta intensificação abismal das variações tecnicamente induzidas que vivenciamos hoje.

O sr. acredita que, em algum momento, esse período de rápidas transformações tecnológica, que impactam a forma como criamos identidades e nos relacionamos, vá em algum momento “desacelerar”? Ou teremos de nos acostumar a uma era de transformações e transições permanentes?

Um dos desafios cruciais das próximas décadas será precisamente o de integrar e estabilizar o conjunto variado e veloz de fluxos de mudança a que doravante nos encontraremos submetidos, ou seja, de elaborar novas formas de viver, de bem-viver, e de conviver. Nossa civilização se encaminha para um cenário onde seremos mais numerosos, mais longevos, mais conectados e (pela mesma razão) mais diferenciados, e isto num ambiente planetário exibindo mudanças climáticas, alterações na biodiversidade e risco de degradação aguda de certos ciclos essenciais à nossa manutenção e à continuidade de importantes biomas. O caminho mais desejável parece ser aquele em que esta estabilização de nosso poder de intervenção global corresponderia ao que Carl Sagan e Nikolai Kardashev vislumbraram como o estabelecimento de uma Civilização do tipo 1, quando a espécie se torna capaz de empregar de maneira sustentável (isto é, regenerativa em longo prazo) as várias formas de energia disponíveis em seu planeta natal. Se alcançaremos ou não este estatuto dependerá de escolhas que faremos não gerações à frente, mas nos anos imediatos.

O nosso corpo está preparado para absorver tantas informações como temos tentado fazer nesses tempos de comunicação em rede? Como relacionamos essa exposição permanente às ansiedades e transtornos no campo da saúde mental?

A mundialização dos processos digitais de manipulação de informação instaurou um autêntico oceano de fluxos de dados em que nos encontramos imersos hoje, e isto faz com que nossos sistemas perceptivos, afetivos e cognitivos atuem continuamente num regime próximo à saturação. Fazemos incessantemente um esforço inconsciente para determinar quais signos, dentre a pletora que nos atinge a cada momento, seriam decisivos para nossa vida e sobrevivência (pense em sinais de trânsito emoldurados por centenas de anúncios luminosos). Na verdade, as próteses de percepção, memória e atenção que portamos e operamos todo o tempo, consubstanciadas nos onipresentes dispositivos celulares, são interfaces de mediação pelas quais conseguimos ter acesso às torrentes de dados que nos envolvem e que, enquanto mamíferos, não estamos adaptados a manipular diretamente. A dependência das telas, como se fossem uma nova variedade de drogas, é correlata a essa mediação indispensável entre nós e o Infoceano.

Em sua fala no Café Filosófico o sr. pretende usar pesquisas recentes, eventualmente inéditas, sobre impacto da tecnologia em nossos corpos? 

O tecnofilósofo Kevin Kelly observa que os avanços das tecnologias exibiram, ao longo de todo o século XX, duas características notáveis: a miniaturização dos componentes dos artefatos (e por consequência a portabilidade, donde a individualização do uso, e logo a massificação da produção) e a aproximação crescente a nossos corpos, mentes e habilidades (praticamos de aritmética à pintura nos teclados e telas que constantemente levamos conosco). A cada vez que diminuímos as dimensões e escalas de operação dos objetos técnicos, mais suas capacidades convergem com a de organismos e sistemas nervosos; assim, quanto mais estes artefatos se “humanizam”, mais artificializamos a nós mesmos. As chamadas Tecnologias Infinitesimais têm, assim, um alcance exponencial, no sentido tanto da abrangência quanto da intensidade. É, portanto, um tema incontornável debater as consequências éticas e políticas da adoção e disseminação destas ubertecnologias.

Poderia falar sobre os trabalhos de residência criativa do Laboratório de Atividades do Amanhã (LAA) do Museu? O que tem sido elaborado ali que nos permite identificar um futuro menos distópico do que vem sendo anunciado nos dias atuais?

O LAA foi concebido como um território de experimentação, inovação e prototipagem, no qual participantes de diversas formações e habilidades pudessem colaborar, de maneira transversal às suas disciplinas, na elaboração e exploração de novos problemas. Os desafios e potencialidades trazidos pelas Tecnologias Exponenciais atualmente em desenvolvimento são ingredientes extremamente relevantes na construção destes campos de problematização, a partir dos quais novas formas de pensar, agir, perceber e sentir podem vir a ser experimentadas. Como Oscar Niemeyer gostava de dizer, é preciso buscar sempre o inesperado.

  

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