Rugby em Cadeira de Rodas: treinos de alto rendimento garantem autonomia e liberdade aos atletas com deficiência

Dia Nacional do Atleta Paralímpico reforça a importância do esporte no resgate da confiança

Campinas, SP: O Dia Nacional do Atleta Paralímpico, celebrado no dia 22 desse mês, reforça a importância do esporte na recuperação da confiança, liberdade e autoestima da pessoa com deficiência. Isso porque, o esporte paralímpico é de alto rendimento e exige treinamento diário, disciplina e muita garra. Por meio dele, os atletas conquistam independência e autonomia. É dessa forma que o trabalho constante e direcionado da Associação de Esportes Adaptados de Campinas (ADEACAMP) é realizado para trazer benefícios para vida dos seus atletas.

O trabalho multidisciplinar desenvolvido no Projeto Rugby em Cadeira de Rodas – Fase 1 tem como objetivo desenvolver a capacidade dos atletas de se locomoverem em quadra com agilidade e segurança e estimular habilidades importantes nesses atletas que serão utilizadas também fora de quadra, no dia a dia de cada um deles. Para isso, são necessários profissionais de diferentes áreas trabalhando de forma integrada. O trabalho do preparador físico é complementado pelas ações da fisioterapeuta da equipe. Essa interligação tem trazido resultados positivos para os atletas, conforme relata Ana Carolina Carneiro Andrade, uma das jogadoras da ADEACAMP. “Quem está de fora acha que é só bater cadeira, mas não é, é saber que estou ali empurrando aquela cadeira que um tempo atrás eu não conseguiria. O Rugby é uma escadinha de qualidade de vida, eu estou no comecinho, de batida em batida para um dia conseguir ficar um bom tempo em quadra jogando e me sair bem”, explica.

A satisfação em fazer parte do time é tão grande que a atleta sequer se lembra do esforço feito diariamente para manter a rotina de treino. Para conseguir chegar às 9 horas na quadra, a atleta precisa acordar às três horas da manhã e fazer tudo sozinha. “O esporte pra mim é qualidade de vida, é estar inserida na sociedade, ter a possibilidade, enfrentar meus obstáculos de locomoção, brigar pelo meu direito de ir e vir e dar a possibilidade para outras pessoas com deficiência também terem isso”, ressalta.

Um dos critérios para ser um jogador de Rugby é que o atleta tenha três membros afetados, o que pode trazer uma grande dificuldade para o desenvolvimento e a mobilidade durante a prática esportiva, segundo a fisioterapeuta da equipe Rafaela Aguiar. “Hoje, a maior parte dos atletas de Rugby são tetraplégicos. Quando você escuta tetraplégicos pode se assustar, mas eles vieram para mostrar que apesar de todas as dificuldades que  têm, enfrentam coordenação motora, tocam cadeira como ninguém, tem garra, brigam”, completa. Além disso, ela reforça que com a prática esportiva os atletas passam a acreditar mais neles, assim evoluem mais fisicamente e mentalmente também, conseguindo levar isso para a atividade de vida diária deles. “Nós da comissão técnica da Adeacamp procuramos sempre dar essa autonomia, incentivando o atleta a começar do básico e chegar no avançado, e está dando super certo”, explica.

Os resultados positivos do trabalho dessa equipe multidisciplinar podem ser percebidos em quadra. Um exemplo é como a ADEACAMP tem conseguido manter no time um número grande de pessoas com mais experiência no esporte, que se apoiam cada vez mais nos treinos de alto rendimento com objetivo de se aprimorarem cada vez mais. Edison Cavalari, preparador físico da ADEACAMP,  acompanha o time desde 2016 e reforça que para a pessoa com deficiência, um esporte paralímpico traz muitas melhorias em relação à autonomia. “Muitas vezes a deficiência é estigmatizada e acaba tendo muito aquela visão assistencialista e super protetora, tanto por parte da família, como da sociedade em geral. O fato da pessoa estar em uma modalidade coletiva acaba mostrando que ela não está restrita a aquele ambiente médico domiciliar, podendo voltar a gozar de outros prazeres na vida”, completa Edison.

Já em relação à parte física, ele explica que o atleta com uma lesão medular cervical tem um variabilidade cardíaca e respiratória decorrente da lesão alta e o Ruby, como uma atividade física intensa, acaba trazendo melhorias cardiorrespiratórias e até mesmo auxiliando nesse processo. Além disso, o modelo do toque de cadeira, a biomecânica desse processo, permite que o atleta faça alguns movimentos que não fazem parte do seu cotidiano, ativando e fortalecendo algumas musculaturas, como por exemplo a dos braços, o que também gera uma maior autonomia no dia a dia. “A gente recebe pessoas que quando chegam não conseguem se transferir de uma cadeira de passeio para a de jogo, de um banco de carro para uma cadeira de passeio ou realizar algumas funções básicas dentro de casa como pegar algo do chão ou se alimentar sozinho”.

Foi o que aconteceu com o Dione Pereira Alves, atleta da ADEACAMP desde 2018. Ele conta que além de novas amizades, a convivência com outros atletas possibilitou que ele desenvolvesse outras atividades. “Mesmo com dificuldade, eu via meus colegas fazerem coisas que não conseguia e pensava ‘poxa um dia eu quero fazer isso também’ e começava a tentar, tentar e, de repente, eu começava a fazer coisas que eu não conseguia. Então, o esporte me trouxe mais independência, mais qualidade de vida e mais oportunidade”, explica.

Projeto Rugby em Cadeira de Rodas Fase I – O projeto Rugby em Cadeira de Rodas – Fase I é  desenvolvido pela ADEACAMP nas dependências da Faculdade de Educação Física da UNICAMP. Realizado por meio da Lei Federal de Incentivo ao Esporte, o projeto que oferece treinos de alto rendimento aos atletas conta com o patrocínio das empresas Atacadão, Fundação John Deere, Tetra Pak, Agibank, Fundação Educar DPaschoal e o apoio da Prefeitura Municipal de Campinas.

Sobre a ADEACAMP – A Associação de Esportes Adaptados de Campinas (ADEACAMP) é uma sociedadecivil sem fins lucrativos que busca propiciar a participação de pessoas com deficiência em práticasesportivas, promovendo qualidade de vida e incentivando a prática de esportes adaptados em Campinas eregião. A Associação fundada em Agosto de 2008, oferece duas modalidades em cadeiras de rodas, o Handebol e o Rugby, sendo essa última uma modalidade paralímpica. A equipe ADEACAMP é tetracampeã brasileira na modalidade Rugby em Cadeira de Rodas e realiza os treinamentos no Ginásio da Faculdade de Educação Física da Unicamp.

 

  

Comentários