Construindo o próprio caminho (Conflitos Adolescentes)

Luciano Rocha

O desenvolvimento de uma personalidade consciente de si e do seu lugar no mundo ao qual pertence demanda esforço para se estimular as potencialidades na busca da realização de sua totalidade, na construção da sua individuação, do tornar-se si mesmo.

Quando se fala em desenvolvimento das potencialidades do ser humano há que se considerar as influências familiares no processo, pois é justamente a partir das bases adquiridas no convívio em família que o sujeito vai construir suas primeiras referências simbólicas, sua auto-imagem, sua configuração psicológica que lhe dará suporte para iniciar suas relações.
É importante, portanto que reflitamos sobre a responsabilidade da família para a formação do ser.

Desde o nascimento o ser humano vai seguindo rumo à construção do si mesmo, porém influências familiares existem bem antes, quando nasce a criança herda uma gama de expectativas da família, sofre grande influência de conteúdos que lhe são transmitidos mesmo que inconscientemente, uma série de desejos dos pais são despejados nesse novo ser e sua trajetória de individuação, do processo de tornar-se SI MESMO requer um desligamento paulatino de tudo o que não é genuinamente seu, requer a construção de seu próprio caminho, escrever sua própria história.

O processo de construção, de desenvolvimento das potencialidades do ser humano é um trabalho que se dá ao longo da vida, porém a adolescência é de grande importância no processo, nesta fase o apoio da família é imprescindível. Na adolescência as notórias mudanças físicas não são as únicas, um passo importante na trajetória do autoconhecimento está normalmente em andamento, questionar as verdades sobre si mesmo e sobre o mundo é parte desse passo, muitas vezes torna-se insuportável para o adolescente confrontar-se com tantas mudanças, normalmente depara-se com questionamentos sobre a identidade sexual, há estranhamento quanto à imagem corporal, existe ainda um descompasso marcante entre o seu verdadeiro EU e aquele eu construído para melhor se adaptar à vida em família e em sociedade. Na adolescência uma porta se abre para o encontro com a DIFERENÇA, uma porta que liga dois mundos específicos: O MUNDO DOS PAIS no qual viveu e ao qual está intensamente ligado e o OUTRO MUNDO, o mundo do encontro com o desconhecido fora e dentro de si mesmo.

Confrontar as verdades trazidas desde a infância é algo que auxilia o adolescente a encontrar-se, porém quando a família não compreende essa necessidade e luta para manter o jovem prisioneiro das VERDADES FAMILIARES acaba por prejudicar imensamente seu desenvolvimento, sua INDIVIDUAÇÃO.

Não bastasse a guerra em família para encontrar-se, o jovem ainda enfrenta outra batalha cruel… Nossa sociedade costuma educar conforme as necessidades econômicas e sendo assim somos educados para nos tornarmos consumidores, para fazermos parte de uma “elite” controladora ou de uma massa alienada de si e de seus valores e ideais, a formação do sujeito é desprezada em vista do imperativo de torná-lo um bom consumidor, garantia da manutenção dos padrões econômicos vigentes. Acontece que na adolescência, fase de METAMORFOSE normalmente tudo isso pode ser questionado e diante da AMEAÇA de mudança trazida pelos questionamentos dos jovens há uma verdadeira luta para se impedir sua busca pela própria verdade, pois esta muitas vezes se choca com as verdades até então constituídas.

É COMUM, HISTORICAMENTE FALANDO, AS GRANDES MUDANÇAS SOCIAIS ACONTECEREM PELA INICIATIVA DOS JOVENS.

Individuar-se, construir o próprio caminho torna-se então uma luta interna e externa, os monstros que habitam o mundo ao redor são tão assustadores quanto àqueles que se criaram no escuro de nossa mente ao depositarmos continuamente (desde tenra idade) conteúdos rejeitados de nossa personalidade, mas que nos constitui como sujeitos INTEIROS, para nos adaptarmos ao ambiente em que vivemos ou meramente para agradar família e sociedade.
É preciso que o EDUCAR esteja voltado para dar condições ao ser humano de chegar a ser sujeito, construir-se como pessoa, desenvolver suas potencialidades, TORNAR-SE SI MESMO.

  

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