Cuidados com crianças na internet nas férias

Por Ana Carolina Paes de Mello

 

Imagine que você mora em uma casa de rua e tem filhos pequenos. Você não deixa a porta de casa aberta para eles irem e virem quando quiserem, não é?

 

Hoje a internet é uma casa de rua com a porta aberta. E você sabe onde seus filhos têm ido?

 

Segundo a pesquisa feita em outubro de 2022 pelo Panorama Mobile Time/Opinion Box sobre Crianças e Smartphones, que entrevistou 1.500 brasileiros pais de crianças entre 0 e 12 anos:

 

●     Quase metade das crianças, 44%, têm um smartphone próprio, 35% utilizam o aparelho dos pais, apenas 21% não usam;

●     Na faixa entre 10 a 12 anos, 77% têm aparelho próprio;

●     As crianças brasileiras (até 12 anos) passam em média 3 horas e 43 minutos por dia no smartphone;

●     Crianças de 0 a 3 anos passam cerca de 2 horas e 56 minutos online;

●     O Youtube é a principal fonte de acesso de informação e entretenimento;

●     E uma boa notícia: 77% dos pais restringem o uso do aparelho de alguma maneira.

 

Com as férias chegando, as crianças passarão mais tempo em casa e, inevitavelmente, mais tempo nos dispositivos eletrônicos. Por isso, é importante acompanhar por onde eles têm andado no mundo digital, estabelecer regras em família sobre o que é aceitável ou não e fazer uso de recursos tecnológicos para auxiliar os pais nessa missão.

 

As dicas que trago aqui são um misto da minha experiência profissional e das práticas estabelecidas com meus próprios filhos.

 

  • Aplicativos e jogos têm indicação de idade apropriada. Verifique sempre se a idade equivale a de seus filhos e se há controle parental, ajuste por categoria de idade (maiores ou menores de 13 anos), se há comentários importantes sobre aquele produto, como abordagens não solicitadas a menores.

 

  • Ensine sobre os riscos de clicar em links suspeitos. Links suspeitos são aqueles criados com o objetivo de promover ataques e golpes na internet, assim ao clicar você pode baixar um vírus, ou até ser persuadido a fornecer dados pessoais e informações confidenciais a um site falso.

 

  • Não deixe disponível um cartão de crédito cadastrado para compras em aplicativos. Muitos pais acabam levando um susto quando a fatura chega com centenas de dólares em joguinhos.

 

  • Combine com os filhos um limite de tempo de uso aceitável de acordo com a idade. Várias ferramentas, como Google Family ou Apple Family permitem estabelecer limite de uso e bloqueio do dispositivo após este período combinado.

 

  • Estas mesmas ferramentas permitem estabelecer um limite de horário para repouso. Muitos pais vão dormir e as crianças seguem na internet madrugada adentro. Com o tempo de repouso ativado, o celular vai parar de funcionar no horário combinado e garantir uma noite de sono saudável.

 

  • Estabeleçam aplicativos, sites e plataformas aceitáveis de acordo com a idade de seus filhos.

 

  • Converse com as crianças sobre riscos na internet. Peça que eles notifiquem caso haja qualquer interação que eles considerem inadequada. Cyberbullying é um problema digital com consequências reais e duradouras. Educar e informar é fundamental.

 

  • A regra sobre conversas com estranhos serve para a vida digital da mesma maneira que serve para a vida real. Nomes reais, endereços, idade e outras informações pessoais não devem ser fornecidos para pessoas que eles não conhecem pessoalmente. Ensine-os a usar codinomes para jogos e senhas seguras.

 

  • Não basta cobrar. Em termos de educação digital é importante também dar o exemplo. O uso saudável das redes sociais, de conteúdo digital de menores online começa também com o exemplo em casa.

 

As ferramentas digitais são recursos muito úteis de educação, construção de conhecimento, interação social, mas como tudo mais neste período crucial de desenvolvimento, deve ser estabelecido um limite saudável para o bem e a segurança dos nossos menores.

 

Mas mesmo ensinando às nossas crianças a ter todo cuidado no mundo virtual, é importante que os pais também adotem práticas, principalmente neste período.

 

Com a chegada do fim do ano, nossos filhos passam a ter apresentações de encerramento na escola, encontros em família e amigos, viagens, diversos eventos que gostamos de registrar e compartilhar em nossas redes sociais.

 

Porém, ao compartilhar estes eventos, precisamos ter cuidado para não expor nossos filhos e crianças próximas, compartilhando vídeos, fotos, e até sua rotina, pois ao dividir estas informações pode deixar o seu filho exposto a pessoas mal intencionadas.

 

Neste fim de ano, não deixe de registrar os bons momentos em família, mas ao publicar sempre se atente se não está identificando lugares de frequência regular, como escola e uniforme, cursos extracurriculares, evite postar momentos particulares em que o menor pode estar sem ou com roupa, nunca publique  dados pessoais do menor, e sempre ao realizar uma postagem, pense se o conteúdo expõe o seu filho ou poderia trazer consequências futuras desagradáveis.

 

Ana Carolina Paes de Mello, advogada especialista em Direito Digital e Proteção de Dados na PDMLaw

  

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