Somos Todos Orelha

Orelha – o cão que o país lamentou ter sido assassinado em Santa Catarina há alguns dias – morreu por uma razão simples: por ser apenas orelha.
Morreu porque escutava demais e desconfiava de menos.
Porque reconhecia a voz humana, mas não sabia distinguir carinho de ameaça.
Porque foi feito para ouvir passos familiares e promessas pequenas – nunca o estalo seco da violência.
Na hora em que precisou de olhos para enxergar a maldade humana, não havia. Ela chegou disfarçada de rotina.
Na hora em que precisou de boca para gritar, não encontrou.
O grito é uma língua que só nasce em quem já foi ferido antes.
Na hora em que precisou de faro para sentir o podre de seus algozes, faltou.
O cheiro da crueldade, quando vira paisagem, deixa de feder.
Na hora em que precisou de garras para se defender, percebeu que só dispunha de mãos.
Mãos feitas para o afago, nunca para a luta.
E quando precisou de um coração duro o suficiente para odiar quem lhe cortava a carne, encontrou apenas um que sabia amar.
Um coração impróprio para este mundo.
Por isso morreu.
Não por fraqueza, mas por inadequação.
Por lhe faltar aquilo que nunca precisara em um mundo que, até então, parecia formado apenas por pessoas de bem.
Eram cinco. Cinco contra um.
Cinco contra um cachorro que não sabia lutar; entendia apenas de bondade e mansidão.
Cinco contra um ser que, com um pouco só de coragem, teria posto em fuga um número muito maior de covardes.
Mas Orelha não latia – confiava.
E a confiança, neste país, muitas vezes é sentença.
Se olharmos para a fortuna desses pulhas, para os nomes que carregam, para o apoio familiar, para as justificativas prontas, para os silêncios cúmplices e até para a própria justiça – que insiste em ser cega, mas escolhe onde tocar – esse número se multiplica.
Cinco viram sistema.
Sistema vira regra.
Essa história de Orelha me remete a nós, brasileiros. A meu ver, somos bem parecidos.
Também somos dóceis.
Também fomos treinados para aceitar.
Também não temos olhos para ver a maldade quando ela se veste de normalidade.
Também não temos boca para gritar – aprendemos cedo que gritar significa problema.
Também perdemos o faro: o cheiro do podre nos acompanha há tanto tempo que já se tornou parte da casa.
Como Orelha, somos diariamente massacrados por quatro ou cinco que se atribuem o direito de nos aterrorizar.
Quatro ou cinco que mandam, legislam, lucram, absolvem, mentem.
Quatro ou cinco que decidem quem vive, quem morre, quem tem valor e quem pode ser descartado.
Morremos aos poucos… quietos.
Morremos no transporte lotado, no salário curto, na bala perdida que nunca se perde.
Morremos na espera, na promessa adiada, no direito que nunca chega.
Um sistema corrupto e voraz nos mastiga dia após dia.
E seguimos, oferecendo a jugular, acreditando que, desta vez, será diferente.
Nossos corações ainda são bons – esse é o problema.
Não foram feitos para a guerra.
Não aprenderam a odiar.
Não sabem morder…
Somos um país de orelhas.
Orelhas acomodadas que aceitam promessas sem perceber o estalo da armadilha.
Quer saber a real?
Enquanto confundirmos bondade com submissão,
enquanto aceitarmos a violência como rotina,
somos todos Orelha.